Um problema recorrente no norte de Minas volta a causar preocupação. A seca que castiga na maior parte das vezes as populações das áreas rurais agora atinge também o maior centro urbano da região, o município de Montes Claros.

Com aproximadamente 400 mil habitantes, a cidade é atendida pela Copasa, por meio de captação principalmente no reservatório de Juramento. No entanto, em maio deste ano o Instituto Mineiro de Gestão das Águas (Igam) declarou situação crítica de escassez hídrica superficial na barragem, que responde por 65% do abastecimento da cidade.

A partir daí, a Copasa teve reduzida sua outorga para captação em Juramento e o município passou a sofrer com a falta de água. "Montes Claros já está fazendo racionamento e rodízio no abastecimento. Atualmente, o fornecimento de água acontece por 24 horas e é interrompido por 48 horas", informou o diretor de operação norte da Copasa, Gilson de Carvalho Queiroz Filho.

Ainda segundo Queiroz Filho, o reservatório de Juramento está em seu pior nível dos últimos seis anos: 16%. E não há previsão de recuperação já que ainda não houve registro de chuvas significativas na região.

Por isso, a Copasa iniciou um projeto de construção de uma adutora que permitirá a captação de água do rio Pacuí, que nasce em Montes Claros e deságua no rio São Francisco, em Ibiaí. A expectativa é de que a obra esteja concluída até meados do ano que vem e a captação se inice já no segundo semestre de 2018.

No entanto, pequenos agricultores que utilizam água do rio Pacuí, especialmente no município de Coração de Jesus acusam a Copasa de realizar o projeto todo sem participação popular. Eles também temem que a obra cause falta de água na cidade, que não é abastecida pelo manancial, mas cuja agricultura é mantida com as águas do Pacuí.

Segundo informações do Centro de Agricultura Alternativa do Norte de Minas (CAA/NM), a população da cidade foi surpreendida com a obra já em execução. “O projeto da obra, estimada em cerca de R$ 135 milhões, foi elaborado e sua execução iniciada sem nenhuma discussão com a cidade e, pior ainda, sem nenhum diálogo com as comunidades rurais e com os poderes públicos municipais da bacia do rio”, afirmou o pesquisador e colaborador da instituição, Carlos Dayrell.

Já o presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Coração de Jesus, Cícero Neiva Melo Crisóstomo, afirma que a população ribeirinha será gravemente impactada pela obra. “Essa obra vai afetar todos os ribeirinhos que precisam da água para matar a sede, dar de beber aos animais e produzirem alimentos. Muitas famílias daqui vivem da produção hortifrutigranjeira para abastecimento dos sacolões e supermercados de Montes Claros”.

Queiroz Filho explica, entretanto, que a prioridade no uso dos recursos hídricos é o abastecimento humano, uso que ainda não existe no rio Pacuí. "Na verdade, irrigantes que utilizam o rio estão receosos de ficarem sem água para suas atividades. Ainda não temos uso humano nesse trecho, apenas uso agrícola".

Além disso, a outorga da Copasa é para captação de até 349 litros por segundo (l/s), deixando sempre um mínimo de 400 l/s - o que segundo Queiroz Filho é suficiente para resolver de imediato o problema de abastecimento em Montes Claros, mas também garante também o uso que já é feito hoje por 7.200 ribeirinhos do Pacuí.

Ele também admitiu que o projeto inicialmente não teve participação popular em função da urgência de uma solução para o desabastecimento em Montes Claros. No entanto, ele afirmou que recentemente tem sido realizadas várias audiências públicas sobre o tema e debates com a população e, garantiu que, apesar da prioridade no uso da água ser o abastecimento humano, os ribeirinhos não serão afetados pela captação realizada pela Copasa.

"Não houve um momento de debate e esclarecimento com a população ao longo do Pacuí, mas agora estamos fazendo debates em Montes Claros e Coração de Jesus. Ou seja, hoje já há uma movimentação pra esclarecer as pessoas. No entanto, muitas delas já firmaram suas posições e o tema virou uma disputa política, em vez de um debate sobre o problema em si, que é a questão da preservação das nascentes, da recuperação produção de água e da minimização dos impactos da agricultura na bacia".

Solução definitiva

Mais a longo prazo, o projeto da Copasa é proseguir com a adutora até o município de Ibiaí. Dessa forma, o problema de abastecimento de água em Montes Claros seria solucionado definitivamente pois a captação também seria feita do rio São Francisco, cujo volume de água é muito maior.

A previsão de Queiroz Filho é de que a obra fique pronta em até dois anos após a conclusão do projeto, que ainda está em fase de elaboração. A partir daí, essa adutora abasteceria também Ibiaí, Coração de Jesus, Brasília de Minas, Luizlândia e outras comunidades e distritos ao longo da bacia do rio Pacuí.