Projeto imposto pelo Governo Estadual com intuito de diminuir evasão aumenta carga horária com disciplinas voltadas para áreas de empregabilidade, mas na prática não é isso que acontece

 

Criado pelo Governo de Minas como alternativa para capacitar os alunos e diminuir os índices de evasão escolar, o Projeto Reinventando o Ensino Médio tem recebido duras críticas de professores e estudantes.

Pela proposta imposta pela Secretaria Estadual de Educação, nos últimos três anos de formação a carga horária dos alunos passa de 2,5 mil horas/aula para três mil horas/aula, com a inclusão de um sexto horário. Para preencher esse tempo, os estudantes podem escolher uma disciplina voltada para área de empregabilidade, entre três opções disponíveis. A expectativa do Governo é que até 2014 todas as 2.164 escolas estaduais de Minas estejam com o projeto implementado.

Contudo, ao final da exaustiva jornada de estudo, esses alunos não vão sair do Ensino Médio aptos e preparados para a área cursada. Se quiserem se profissionalizar, terão que fazer um curso técnico. Essa é uma das principais queixas de quem está na sala de aula. Além disso, nem sempre os professores que ministram as disciplinas são especialistas na área.

Evasão

Quando lançou o programa, em 2011, o governador Antonio Anastasia citou que o Reinventando o Ensino Médio deixaria o estudo mais atrativo. “Há em todo o Brasil uma grande preocupação com a evasão no ensino médio. Então, o Reinventando o Ensino Médio se apresenta como algo extremamente inovador, um novo modelo para o ensino médio mais atrativo para os alunos", disse.

No entanto, essa não parece ser percepção de quem deveria ser beneficiado pelo projeto. Muitos estudantes reclamam que as áreas oferecidas são escassas, uma vez que cada um só pode optar por uma entre três disciplinas ofertadas pela escola. Além disso, outra queixa é que não é possível mudar de área no decorrer de três anos. O aluno é obrigado a cursar a disciplina mesmo se não tiver interesse, o que acaba desmotivando o estudo.

Segundo dados da Secretaria Estadual de Educação, a taxa de evasão do Ensino Médio em Minas é de 9,1%. Desse total, 10,2% dos alunos que decidem largar a escola são da rede estadual. Nas instituições federais, municipais e privadas essa taxa fica em 1,1%, 5,9% e 0,5%, respectivamente.

Para o professor da Faculdade de Educação e do Observatório da Juventude da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Geraldo Leão, o índice de evasão registrado no Estado se deve a falta de acesso à escola por parte de alguns estudantes, principalmente em municípios mais carentes, com os do Norte de Minas.

"O problema da rede estadual de educação é de infraestrutura. Há problemas como funcionamento de laboratórios e equipamentos de informática, que muitas vezes não funcionam direito. Temos também a questão da carreira do docente. Muitos professores atuam com vínculo precário com a escola, não são contratados. Há um rodízio muito grande e isso prejudica o ensino. Há também carências em algumas áreas, como matemática e química. Outro problema é a questão salarial. Não dá para estender a jornada dos alunos sem estender os benefícios aos docentes", sentencia.

Conforme o especialista, essa realidade só pode ser mudada com uma política nacional que beneficie a educação.

Imposição

Para o Sindicato Único dos Trabalhadores em Educação de Minas Gerais (Sind-UTE/MG), uma das grandes falhas do Reinventando o Ensino Médio é que ele não foi construído coletivamente, em conjunto com os professores e trabalhadores da educação da rede estadual. A comunidade escolar também não foi ouvida para a concepção do programa.

Com isso, o projeto foi criado sem ao menos um debate democrático, simplesmente foi imposto, sem direito a questionamento e propostas de melhorias ou adaptações.