Contribuir para que mulheres da periferia planejem e construam, com independência e sem desperdícios, a casa onde querem morar. É o que busca o Arquitetura na Periferia, iniciativa que surgiu em 2013, oferecendo formação técnica, acompanhamento e empréstimos para moradoras de ocupações urbanas em BH. O projeto agora realiza uma campanha de financiamento coletivo para ampliar suas atividades.

Construir com autonomia

Raphaela Souza trabalha como faxineira e vive com as três filhas na Comunidade Dandara, região da Pampulha, em BH. Antes de encarar uma ocupação urbana, ela morava em um cômodo alugado, atrás do qual havia um muro de arrimo. Com as chuvas, a lama entrava no barraco e danificava os móveis.

“Foi aí que eu disse: ‘Vou pra ocupação Dandara’. Morar de aluguel é uma cruz que você carrega. Às vezes, você paga direitinho. Aí, a dona pede a casa e lhe dá quinze dias. Como você, trabalhando o dia inteiro, consegue uma casa em quinze dias?”, indaga.

Na Dandara, Raphaela chegou morando em casa de lona improvisada, passando, depois, a um barraco de madeirite, que atraia bichos e soltava pedaços quando chovia. Até que, um dia, ela se juntou a um grupo auto- organizado de mulheres do Arquitetura na Periferia.

“A partir do projeto, eu consegui fazer três cômodos na minha casa. Não fui eu que subi as paredes totalmente, pois tive ajuda do meu namorado, mas preparei o concreto, a massa para bater o piso grosso. Às vezes, a gente não tem dinheiro pra pagar alguém e o que a gente tem é para sustentar os filhos. Então, aprendendo a fazer, nós mesmas fazemos”, comenta.

Planejar e financiar

“A arquitetura é tradicionalmente feita para atender a classes mais privilegiadas, instituições, grandes obras. E, no Brasil, a maior demanda está nas periferias, onde as pessoas constroem sem assessoria técnica, gerando vários problemas, como desperdício de material, tempo, dinheiro”, explica a arquiteta Carina Guedes, idealizadora do projeto. Ela acrescenta que as mulheres gastam, em média, duas vezes mais tempo que os homens em trabalhos domésticos, mas, na hora em que sua própria casa vai ser construída, elas não têm o mesmo espaço para tomar decisões.

O projeto compreende reuniões com as mulheres, visando empoderá-las ajudando a melhorar suas casas, em um processo que passa pelo planejamento da reforma, medição, desenho e orçamento, antes e durante a execução. “É uma metodologia pautada pelo compartilhamento da informação. Em vez de oferecer um produto, oferecemos esse aprendizado”, acrescenta.

Depois, as participantes recebem um pequeno empréstimo, sem juros, para financiar a obra. Tudo acompanhado por uma equipe de três arquitetas, duas estudantes de engenharia e uma moradora.

Financiamento coletivo

Sempre com trabalho voluntário, o projeto já organizou três grupos na Dandara e outro na Ocupação Eliana Silva, região do Barreiro. Para dar conta das despesas, o grupo se inscreveu numa plataforma de financiamentos coletivos, com meta inicial de arrecadar R$ 30 mil e meta final de R$ 40 mil. Com o dinheiro, pretende ofertar cursos de reformas e serviços de construção. A campanha vai até 28 de novembro, com doação mínima de R$ 15.

Mais informações no link: goo.gl/eHnyBS.