Um grito pela democracia, contra a opressão dos trabalhadores e a manipulação da grande mídia. Quem lê a descrição pode imaginar que o assunto é sobre uma manifestação de um partido ou movimento sindical, mas o grito foi da escola de samba vice-campeã do Carnaval 2018 do Rio de Janeiro, Tuiuti. Em um desfile histórico, a escola trouxe o enredo “Meu Deus, meu Deus está extinta a escravidão?” numa crítica clara às reformas trabalhista e da previdência do governo de Michel Temer.
 
O desfile ainda abordou o tema da manipulação com paneleiros com camisas do Brasil e patos da Fiesp sendo controlados por grandes mãos. O grande destaque ficou com o “vampiro neoliberal” que desfilou no carro alegórico com a faixa presidencial, em referência a Temer. Apesar do vice-campeonato, a escola teve repercussão abafada na Globo e em outras grandes mídias, que insistiram em priorizar o acidente com o carro alegórico da escola no Carnaval de 2017.
 
Ator, agente da cena cultural em Belo Horizonte e dirigente do Sindicato dos Eletricitários de Minas Gerais (Sindieletro-MG), Marcelo Borges comenta o desfile da Tuiti e a importância da arte na manifestação política.
 
Uma escola de samba que denunciou de forma explícita as reformas do governo de Michel Temer e trouxe assuntos polêmicos como golpe e manipulação. Podemos dizer que esse foi um acontecimento histórico no Carnaval brasileiro?
 
Historicamente grupos se posicionam politicamente no Carnaval, mas este ano eu senti, não só no Carnaval do Rio de Janeiro, mas também em Belo Horizonte, um crescimento desse tipo de manifestação. O povo está descobrindo, cada vez mais no Carnaval, um lugar para se manifestar, colocar sua opinião, brigar pelo que acredita e defender suas classes e causas. Eu achei que esse ano houve um crescimento nas manifestações políticas no Carnaval. E eu comemorei muito a vitória da Tuiuti. 
 
A história mostra que os governos não democráticos se aproveitaram de momentos festivos como a Copa do Mundo e as Olimpíadas para dispersar a população. Mas, nas últimas Olimpíadas, o presidente Michel Temer foi vaiado na abertura. Agora, no Carnaval, ele foi retratado como um vampiro num carro alegórico. Como o senhor analisa esses acontecimentos?
 
De fato o futebol sempre foi colocado como uma forma de alienar a população, de amenizar a situação política, como se ele comprasse a consciência do trabalhador. No Carnaval, graças ao talento de muitos artistas, isso não acontece tanto: a arte tem essa função histórica de mostrar o que vem acontecendo no mundo. Está crescendo, cada vez mais, a consciência da população com a participação de artistas que têm essa leitura política. Isso tem transformado esses espaços em locais para contrapor governos ditatoriais e denunciar desigualdades.
 
Apesar de ser uma crítica explícita, o desfile da Tuiuti utilizou de metáforas, como a escravidão do negro, fazendo referência à nova escravidão com as reformas trabalhista e da previdência. Como esses recursos da metáfora e do lúdico são eficientes num contexto de luta?
 
Ao contrário do que muitos pensam - que o povo é ignorante e que não sabe ler – é através das metáforas das manifestações culturais é que se passa a mensagem. O povo não é burro, ele é capaz de fazer a leitura correta. É claro que a grande mídia tenta mostrar outro lado, tenta desvirtuar o que o artista está denunciando, mas o povo sabe ler, a leitura é sim acessível ao povo. Chegou o momento dos movimentos sociais, sindicais e de luta em geral embarcarem mais no lúdico e na metáfora em vez de ficar só naquele discurso panfletário, que fica chato para a população. Através da arte o povo faz a leitura muito mais facilmente. É um recurso poderoso e é por isso que os artistas que têm um posicionamento mais questionador, como o Chico Buarque, são perseguidos. Eles denunciam as mazelas de uma forma que chega ao coração e à mente do povo.
 
A Globo e outras grandes mídias abafaram a transmissão do desfile da Tuiuti e tentaram minimizar o que a escola fez relembrando a tragédia com o carro alegórico no ano passado. Como você enxerga essa ação e como isso reacende a necessidade de mídias alternativas?
 
A grande mídia tem um lado: ela está aí escondendo coisas e mostrando o ponto de vista dela. A mídia alternativa é fundamental nesse sentido. E isso tem que surgir dos movimentos sociais e sindicais: eles é que precisam construir essa mídia alternativa. É função deles fomentá-las. Só assim vamos contrapor a grande mídia. Outro grande aliado são as redes sociais, que viabilizaram o acesso da população a assuntos que a grande mídia não mostra ou camufla. A mídia alternativa pode aproveitar isso.