Na última semana, uma entrevista de Rodrigo Maia durante um desses eventos para endinheirados em São Paulo pareceu passar despercebida. A agenda da Câmara dos Deputados - dita “Casa do Povo” -, segundo Maia, tem um foco claro: o bom e velho mercado.

Nessa ressaca pós-golpe interminável, o país anda nu pelas ruas e parece já não causar qualquer repulsa ou constrangimento. Nesse boteco chamado Brasil, terra de fanfarronices políticas e malabarismos jurídicos, o botox de nossos governantes derrete, mas a cara não queima!

Pode parecer confortável, agora, assistir o definhamento do grupo político que tomou de assalto um mandato presidencial legítimo. Quanto mais se estapeiam, maior é o regozijo de quem há tempos não sentia tanto prazer em assistir o Jornal Nacional. Entretanto, o sincericídio do atual presidente da Câmara nos possibilita pensar para além dessa atual zona de conforto chamada “Fora Temer!”.

Convenhamos: Para a Casa Grande, a tal da democracia é um mero detalhe. Se a estratégia Temer não funciona mais - ou tem prazo de validade curto - cabe às nossas ilustríssimas elites descartá-la e buscar novas soluções que garantam o controle do mercado sobre os caminhos tomados pelo país.

Não bastasse a triste lembrança de um golpe militar, assistimos abertamente a um processo de impeachment ilegal e, agora, ouvimos novamente o velho coro por eleições indiretas. A história prova, de novo, que não há qualquer compromisso dessas elites com a democracia ou com os anseios e necessidades do povo. O importante, como tanto propagandeiam, é tocar essas malditas reformas!

O que Rodrigo Maia quis dizer, no final das contas? “Acalme-se, ó Deus Mercado! Com Temer ou sem Temer, quem manda aqui é você!” Fica claro, diante de tamanha sinceridade, que não basta gritar aos quatro ventos “Fora Temer!” e torcer para que Michel seja comido pela Globo. Ou tencionamos - nas ruas - essa corda para o nosso lado, exigindo que seja respeitada a vontade e a soberania popular, ou seremos os próximos a serem comidos.

Felipe Pinheiro - diretor do Sindicato dos Petroleiros de Minas Gerais (Sindipetro/MG)