O que significa mais “democracia” na mídia? A coordenadora do comitê mineiro do Fórum Nacional de Democratização da Comunicação (FNDC), Florence Poznanski, explica porque os leitores devem manter olhos e ouvidos atentos às informações que recebem da mídia privada. Para espalhar esse alerta, é organizada de 15 a 21 de outubro a Semana Nacional de Luta pela Democratização da Comunicação.

Florence comenta também as reivindicações do FNDC de melhorias da comunicação em Minas Gerais, como a criação de um Conselho Estadual de Comunicação e a transparência na distribuição de dinheiro público. “A verba que o governo tem não é destinada à Rede Minas e à Rádio Inconfidência, mas sim para propagandas nos meios de comunicação privados”, critica.

Brasil de Fato MG - O que é a Semana Nacional de Luta pela Democratização da Comunicação e o que está previsto para Minas?

Florence Poznanski - É um momento que se propõe a concentrar uma série de atividades para pautar a necessidade de uma mídia mais democrática. Esse é um assunto antigo. Infelizmente, hoje as pessoas se acostumaram a receber uma informação de péssima qualidade. O objetivo é convidar a sociedade como um todo a se perguntar qual mídia eles têm contato e como a mídia poderia ser melhor. Será que a mídia realmente cumpre seu papel cidadão de contextualizar o que acontece no mundo, na sua cidade, no seu país? Será que a mídia permite as pessoas se envolverem para construir um mundo melhor? Estamos planejando oficinas, cineclubes, debates, ação de rua e a gente convida todas as entidades a pensar como pode contribuir com a semana.

Aqui em Minas, o FNDC acompanha também a criação da Empresa Mineira de Comunicação. Quais são os desafios da comunicação pública?

O que diferencia a mídia pública é que ela tem compromisso com o interesse público, de trazer informações aos cidadãos que são de interesse da sociedade. Uma mídia privada, ao contrário, cumpre interesses particulares, com o objetivo de gerar sempre mais lucro. Aqui em Minas, nós temos sorte de ter dois instrumentos públicos, que são a Rádio Inconfidência e a Rede Minas. Porém, são meios de comunicação que têm pouca verba e muita dificuldade de trabalhar. Atualmente, os trabalhadores estão em estado de greve denunciando uma situação que impossibilita o trabalho deles.

O FNDC pressiona o governo para que seja implementado de fato uma política pública de comunicação. A verba que o governo tem não é destinada à Rede Minas e à Rádio Inconfidência, mas sim para propagandas nos meios de comunicação privados. Eles consideram que, como tem mais audiência, vale a pena investir em rádio Itatiaia, Estado de Minas. É uma coisa que nunca foi discutida pelo governo Pimentel. O governador fez promessas que não cumpriu e acaba fazendo uma política igual à que fez Aécio Neves, que foi péssimo no que tange à liberdade de expressão em Minas. O que o FNDC reivindica é a discussão aberta sobre as transparências de verbas e uma política pública que possa envolver a sociedade. A EMC foi criada com a proposta de unificar os canais de comunicação pública, mas tem praticamente nenhuma participação da sociedade. Em algum momento parece que a EMC foi feita mais para reduzir custos do que para promover uma política pública de comunicação.

Quais as reivindicações do FNDC hoje?

O FNDC pauta duas prioridades essenciais. Primeiro, que a EMC tenha um conselho curador, com ampla participação da sociedade, para decidir a programação da emissora e ter inclusive poder deliberativo sobre ela. O mesmo que acontecia na EBC antes do governo Temer, que no primeiro dia na presidência emitiu uma medida provisória que suspendeu os poderes do conselho, infelizmente. A segunda prioridade é a criação do Conselho Estadual, que teria o papel de pensar a política pública para todo o estado. No ano que vem temos eleição e não podemos terminar um governo progressista sem ter feito nada em prol da comunicação pública.

Alguma cidade de Minas possui conselho de comunicação?

Infelizmente conselhos de comunicação são muito raros no Brasil. O único estado que tem um conselho é a Bahia. Ao nível de município é possível, mas da mesma forma são instâncias muito raras. Por isso, convidamos todas as pessoas que se consideram comunicadoras ou se preocupam com o tipo de informação que recebe, a pressionar seus representantes, procurar os meios de comunicação da sua cidade e pensar atividades. A Semana da Democratização da Comunicação é justamente para isso.