Presidente do Conselho Regional de Economia, Antônio de Pádua, aponta que o crescimento econômico do Brasil durante o regime militar foi conquistado a custa de uma política de arrocho salarial e favoreceu a concentração de renda no país e o aumento da inflação na década de 80

Propagandeado como um grande legado da ditadura militar no Brasil, o crescimento econômico do país neste período foi garantido às custas da desestruturação da classe trabalhadora e trouxe ainda sérias consequências para a sociedade alguns anos depois. Além disso, veio acompanhado de uma grande concentração de renda e desigualdade social.

Segundo o novo presidente do Conselho Regional de Economia de Minas Gerais (Corecon-MG), Antônio de Pádua Ubirajara e Silva, se o período militar trouxe alguma contribuição efetiva para o país foi a expansão do papel do Estado no planejamento econômico, principalmente através da consolidação das empresas estatais. No entanto, ele destaca que os prejuízos foram infinitamente maiores.

"Mas, qualquer ganho que se possa destacar deve ser minimizado pelas mazelas geradas por uma ditadura. Os aspectos negativos são muitos. Uma multiplicação do endividamento externo, uma economia com descontrole inflacionário que vai gerar um aumento de preços de quase 90% ao mês nos anos 80. Uma concentração de renda jamais vista na história da república brasileira em um ambiente de arrocho salarial imposto pela violência do Estado sobre os movimentos sociais".

E essas políticas ainda refletem nos dias de hoje. Apesar de muitas mudanças na economia brasileira nos últimos 21 anos, ou seja, desde que a ditadura militar terminou, ainda é possível apontar reflexos das medidas adotadas neste período. "Entendo que influenciam na economia atual as empresas estatais criadas ou consolidadas à época, sendo que a maior parte delas foi privatizada, principalmente durante o governo de FHC [Fernando Henrique Cardoso]. Entendo também que a dívida social que o Brasil tem com os excluídos piorou muito durante a ditadura e, só agora nos últimos dez anos, começamos timidamente a reverter a situação".

Milagre Econômico

Ainda segundo Antônio de Pádua, o chamado Milagre Econômico Brasileiro, período entre 1968 e 1973 em que o país apresentou um expressivo crescimento, se deve basicamente a três medidas. A primeira delas se deve "à utilização da capacidade ociosa instalada provocada pela crise do início dos anos 60, e pelas medidas restritivas ao consumo adotadas pelo plano econômico anterior (PAEG), durante o governo do marechal Humberto Castelo Branco".

Além disso, as estatais tiveram um grande investimento público durante o governo do general Emílio Garrastazu Médici. "Com a reforma do sistema financeiro nacional, há uma dinamização do mercado de capitais e de crédito, permitindo enormes lucros aos bancos e especuladores". Também nessa época houve uma redução dos custos dos bens de capital importados e das matérias primas permitindo um aumento da lucratividade das empresas aqui instaladas, além do aumento das exportações brasileiras com a consequente elevação da entrada de capital estrangeiro no país.

Mas, de acordo com o presidente do Corecon, de todos os pilares do Milagre Econômico, o mais sério foi a redução do salário real dos trabalhadores por meio de uma política de arrocho. Essa medida permitiu a expansão dos lucros privados a níveis altíssimos, em detrimento da qualidade de vida da população. "O Milagre Econômico Brasileiro foi, de fato, a Tragédia Econômica do Trabalhador Brasileiro. Uma expansão econômica voltada para 12% da população, aumentando a pobreza nas grandes cidades, estimulando o êxodo rural, concentrando a renda nacional e transformando o Brasil em um dos países mais injustos do mundo".