“Não é adereço. É sagrado. É responsabilidade. É peso”. A afirmação enfática sobre a utilização do cocar como fantasia de Carnaval é de Avelin Buniacá Kambiwá, indígena da etnia Kambiwá-PE, socióloga, especialista em gênero e raça e ensinos religiosos. Representante da luta indígena em Minas Gerais, ela conversou com o Minas Livre sobre a apropriação cultural nas fantasias de Carnaval e sobre as lutas dos povos indígenas pela terra e pela manutenção de sua cultura. 

O movimento indígena e outros coletivos lutam para que sua cultura não seja utilizada como fantasia, principalmente nessa época de Carnaval. Você pode explicar mais essa luta?

Lutamos contra a popularização das culturas. Se a vestimenta de índio é uma fantasia de Carnaval, então não é nada pra mim. Não quero saber se esse índio está lutando, eu quero é me fantasiar dele e encher a cara de Catuaba. É uma desconexão completa. Quando alguém se fantasia de santo as pessoas ficam chocadas porque aquilo é sagrado para elas. Mas se alguém se fantasiar de caboclo é uma ofensa pra mim. Se alguém colocar um cocar também: o cocar é sagrado para o índio e ele não pode utilizar se estiver bebendo bebida alcoolica. As três penas centrais representam nossas lideranças e as demais são a aldeia inteira. Então é um peso que carregamos na cabeça. Somos um povo massacrado, perseguido, aniquilado e ainda isso no Carnaval? E é muito pouco esse pedido: é possível só respeitar? Temos muitos grupos lutando para não serem transformados em caricaturas no Carnaval: os das religiões africanas, grupos trans, que não aceitam outras pessoas contarem as histórias deles com outros corpos.

O argumento da fantasia como homenagem sempre é utilizado. O que as pessoas que usam esse argumento ainda não entenderam?

Não entenderam mesmo. A questão é que o código sagrado ninguém quer ver. Todo mundo que ver só o porcelanato, limpinho, higienista. Mas o chão da terra e as lutas que sangram ninguém quer ver. Só quer a cultura na hora de se fantasiar, de sair de índio no Carnaval. Mas lutar para manter seu saber, sua voz, sua cultura, sofrer porque dá sinal pro ônibus e ele não para. Isso ninguém quer. É índio-conveniência: quando convém quer ser indígena, mas na hora da peleja não. É indígena só na hora de receber cota na universidade? E na hora de ir para o confronto entre Guarda Municipal e feirantes da Feira Hippie? Tem a afro-conveniência também: a pessoa diz que o bisavô era negro, mas foi criada e tratada socialmente como branco.

Recentemente a Casa Fiat de Cultura ofereceu uma oficina para ensinar a fazer adereços indígenas para o Carnaval. O Comitê Mineiro de Apoio às Causas Indígenas se mobilizou contra. Você pode dizer como foi essa ação e a importância dela?

Fomos à Casa Fiat perguntar o que era a oficina e o que estavam propondo, se tinha indígena lá. A princípio o presidente se sentiu muito agredido com a nossa presença lá. Como a coisa está invertida né? Se sentiu agredido: “por que esses índios estão aqui reclamando se nós estamos fazendo homenagem?” Mas isso não é homenagem. O grande erro da Casa Fiat de Cultura foi não perguntar. Os povos tradicionais estão dispostos a lutar, a combater a intolerância religiosa, mas as pessoas não querem se aproximar. As pessoas têm medo, preguiça ou até acham que o nosso saber não vale nada. Acham que só o saber da academia é o sagrado. E não é assim: a gente pode aprender com as outras culturas sem colocá-las naquele lugar de mito.

Você acredita que casas de cultura como essa em BH representam, de fato, a cultura do povo?

Esses equipamentos de cultura são muito subutilizados. São imensos e podiam oferecer mais coisas para a cidade. Mas eles são tão elitistas que até para entrar assusta um pouco. Tem o circuito inteiro da Praça da Liberdade que muita gente da periferia ainda não acessa, muitas escolas públicas não chegam. Tem que cortar esse etilismo. Esses locais de cultura não podem ficar só no Centro, mas ir para periferia também. Os centros de cultura na periferia estão abandonados. Tem que se achegar ao povo, à nossa cultura, tem que ser mais aberto porque hoje é muito nariz em pé.

Qual a principal luta dos indígenas hoje?

É a questão da terra. Em BH são mais de cinco mil indígenas que não têm lugar para ficar, todos em situação precária, a maioria em situação de periferia, sobrevivendo fora de seu território. Dizem que o agro é pop, mas não é. O agro é propina, mata muita gente, tem acabado com as terras indígenas. Eles têm uma mentalidade tão ruim que a Mãe Terra não é nada para eles, só mercadoria. Então, se têm que explorar, exploram tudo, sugam até o final dela e quando não sobra mais nada vão embora. É a mesma mentalidade da invasão: eles invadem, estupram, exaurem e depois vão embora para outro lugar fazer a mesma coisa. E isso com relação à Mãe Terra, mas também aos nossos saberes, nossa cultura, nossas águas.

Você foi candidata à vereadora de Belo Horizonte e hoje auxilia as vereadoras Áurea Carolina e Cida Falabella, que compõem a "Gabinetona”. Como se dá esse limite entre a luta espiritual indígena, que utiliza o Maracá nos enfrentamentos, mas que também está na política?

É viver na fronteira: não pode dar um passo para traz e nem para lá. Há muitas trocas: eles me ensinam um pouco do conservador, do institucional e eu tento fazer com que eles se indianizem um pouco, mas é bem desigual a força. Me cobram muito para que eu use da máquina do governo pra eu cuidar do meu povo. E está certo porque se eu não estiver lá cuidando das questões indígenas, ninguém vai falar. É uma forma de magafonizar essa luta. Um espaço pra gente dizer que existe, que não fomos extintos, que também queremos lutar. A forma de lutar é com o Maracá, que é um instrumento de entretenimento e luta, mas na política também. Falamos com eles com o Maracá na mão. O que a cidade precisa aprender e que os povos indígenas têm aprendido é utilizar das mídias, da formação da academia, usar esses espaços para poder dizer de nós. Por que por quanto tempo mais vão dizer da gente sem perguntar pra gente?