Dez anos depois do Estatuto, ainda há muito o que avançar para garantir os direitos dos idosos. Nesta terça-feira o mundo comemora o Dia Internacional da Terceira Idade.  Entre as lutas, a mobilização por uma aposentadoria digna e isso deve passar, principalmente, pelo fim do fator previdenciário. Na matéria abaixo, a especialista em gerontologia, Ruth Myssior, avalia a realidade da terceira idade, hoje, no Brasil. A entrevista foi feita por Marcela Viana em Brasil de Fato.

Nos dias 27 de setembro e 1º de outubro são comemorados, respectivamente, o Dia Nacional do Idoso e o Dia Internacional da Terceira Idade. O tema nem sempre recebe a devida atenção da sociedade e dos governos, mas isso deve mudar nos próximos anos. O Brasil, considerado um país jovem, está envelhecendo rapidamente. Dados recentes do IBGE apontam que a população acima dos 65 anos deve passar de 14,9 mi (7,4% do total), em 2013, para 58,4 mi (26,7% do total), em 2060.

O Brasil de Fato MG conversou com a assistente social e especialista em gerontologia (estudo do envelhecimento) Ruth Myssior, para saber se o Estado e a sociedade estão preparados para lidar com os idosos. Ruth é professora de Serviço Social e coordena a Universidade Aberta ao Idoso, programa de educação permanente, criado em 2004, na PUC Contagem, que oferece várias atividades para quem tem mais de 55 anos.

Brasil de Fato - Como indicam os dados do IBGE, até 2060, a população de idosos vai quadruplicar. Estamos preparados para esse aumento?

Ruth Myssior - Acredito que muito pouco. Esse aumento pegou a sociedade de surpresa. Até os anos 1990, apostava-se em um Brasil para jovens. Apenas em 1994, após a morte de aproximadamente 100 idosos, da Clínica Santa Genoveva, no Rio de Janeiro, por conta de água contaminada, é que se fez uma lei específica para esse público: a Política Nacional do Idoso. Já em 2003, foi sancionado o Estatuto do Idoso. Apesar dessas iniciativas, ainda há muito que se fazer. As próprias famílias estão pouco preparadas para cuidar do idoso, até por questões financeiras, e só agora o Estado começa a discutir mecanismos para atender a essas demandas.

Você acredita que as questões relacionadas aos idosos têm a devida atenção da sociedade?

Começa a ter agora. Primeiro porque são poucas as famílias que não têm um idoso em seu meio e segundo porque esses idosos, que antes eram invisíveis na sociedade, hoje aparecem, reivindicam, frequentam universidades, querem lazer, cultura. Mas a acessibilidade para eles ainda é pequena, o que os impede de exercer integralmente sua autonomia e independência.

Outro ponto a ser destacado é que todos nós temos dificuldade de envelhecer. Falar de velho, velhice, é tratar da proximidade com a finitude, ou seja, com a morte. Há ainda, os estereótipos, de que ser velho é o fim da linha, que todos eles devem ficar em casa. E isso não é verdade. Todos podem ter uma vida ativa, enquanto tiverem saúde e lucidez para isso o que os impede de exercer intparadas para cuidar do idoso, até por questões financeiras, e só agora o Estado começa a discutir mecanismos para atender a essas demandas.

Você acredita que as questões relacionadas aos idosos têm a devida atenção da sociedade?

Começa a ter agora. Primeiro porque são poucas as famílias que não têm um idoso em seu meio e segundo porque esses idosos, que antes eram invisíveis na sociedade, hoje aparecem, reivindicam, frequentam universidades, querem lazer, cultura.

De forma geral, quais são os principais problemas enfrentados pelos idosos?

O acesso à saúde gratuita e de qualidade é a principal demanda dos idosos atualmente. Mas acho que, além disso, o que eles precisam, hoje, é ser vistos como cidadãos comuns. Precisamos parar de ver o idoso como necessitado de tutela, de caridade, e o pior, tratá-lo como criança. Assim como qualquer um de nós, ele é um cidadão com direitos e deveres. Por outro lado, há uma grande carência na capacitação das pessoas que lidam com essa faixa etária. Quem trabalha ou convive com esse público, deve saber o que acontece com essa pessoa quando ela envelhece.

O Estatuto do Idoso completa 10 anos no dia 1º de outubro. O que ele trouxe de melhoria na vida de quem tem mais de 65 anos?

Os avanços foram de caráter sociojurídico, como, por exemplo, os vários tipos de violência contra o idoso, hoje, são crimes e com penas previstas no Estatuto. E a violência, nesse caso, não se trata apenas de agressões físicas, mas também de violências psicológicas ou financeiras, como se apropriar indevidamente do cartão bancário de um idoso. Foi também a partir do Estatuto que se implantaram as normas de prioridade aos mais velhos, seja em filas de supermercados ou por meio de lugares reservados no transporte coletivo. Outro progresso trazido pelo Estatuto é a fiscalização mais incisiva das Instituições de Longa Permanência, antes conhecidas como asilos.

O que ainda falta ser implantado?

Muitas políticas sociais previstas na lei ainda não foram implantadas. Uma delas é a criação de mais grupos de convivência para a terceira idade. Com o envelhecimento, as redes sociais das pessoas diminuem muito e, nesse ponto, é muito importante o papel exercido por espaços onde os idosos podem interagir com outras pessoas e trocar experiências. Não há nenhum motivo para o idoso se isolar e ele não deve fazê-lo.