Independência. Esse talvez seja o maior sonho de mais de 35 famílias que dividem um imóvel na Ocupação Pátria Livre, na Pedreira Prado Lopes, região leste de Belo Horizonte. E, não por acaso, a ocupação teve início justamente no dia 7 de Setembro, quando é comemorado no Brasil o Dia da Independência do País.

Ao todo são 35 famílias, sendo 33 chefiadas por mulheres, a maior parte mães solteiras. No total, aproximadamente 70 pessoas, sendo mais de 30 crianças e adolescentes, dividem o espaço que inclui um prédio de cinco andares e um grande galpão, localizado na rua Pedro Lessa.

As famílias se acomodam dividas por andares, onde algumas delas já estão construindo seus lares e dando sua cara às acomodações levando aos poucos seus móveis e pertences pessoais. Já as refeições e as brincadeiras infantis ocorrem em uma grande sala no térreo, considerada o espaço de convivência dos moradores e também dos visitantes. Ela fica ao lado da cozinha, da área de entrada e também de um grande galpão, onde as famílias planejam reformar para garantirem seu sustento.

A sala é um dos espaços de convivência da casa; no local, há uma televisão e alguns sofás  (Foto: Thaís Mota)


"O objetivo da ocupação vai muito além da questão da moradia mas passa também pela geração de emprego e renda das famílias que residem aqui ", afirmou a integrante do Movimento das Trabalhadoras e Trabalhadores por Direitos (MTD) e uma das coordenadoras da Pátria Livre, Soraia Regimare dos Santos, de 40 anos. Ela é mãe de cinco filhos, dos quais quatro vivem com ela na ocupação.

A maior parte das mulheres que mora no imóvel está desempregada e o sustento das famílias acontece por meio do pagamento de pensões para os filhos e benefícios assistenciais. "Muitas das mulheres que vivem aqui nem podem trabalhar fora porque precisam cuidar dos filhos. Eu mesmo tenho um filho de 17 anos que tem paralisia cerebral e é cadeirante. Por isso, nossa ideia é transformar o galpão em um restaurante popular", completou.

Soraia e Taciane vivem na Ocupação Pátria Livre com a família

Soraia e Taciane são coordenadoras da Ocupação Pátria Livre e vivem no local com suas famílias (Foto: Thaís Mota)


Além disso, com a ajuda de parceiros, as famílias já iniciaram um trabalho de limpeza do lote e pretendem já iniciar a plantação de uma horta que, inicialmente, servirá aos próprios moradores, mas que depois poderá também ser aproveitada na alimentação servida no restaurante.

Mas, para tudo isso, elas precisam alguns reparos no imóvel, que está com problemas de infiltração no telhado e carece de algumas reformas. Por isso, as famílias promovem a cada 15 dias um almoço para a comunidade, onde arrecadam dinheiro para as obras. Eles também contam com doações e o auxílio de profissionais como arquitetos e engenheiros que visitam o local e oferecem ajuda.

Organização

Além da organização das famílias por andares, também há uma divisão de tarefas na ocupação, com a formação de equipes de limpeza e da cozinha. Ao todo são servidas quatro refeições diárias e os alimentos são adquiridos e compartilhados por todos os moradores.

Já os móveis da moradia também são compartilhados, mas estão chegando aos poucos. Isso porque, a maioria das famílias que hoje dividem o endereço da rua Pedro Lessa ainda estão se estabelecendo na nova vida.

Famílias pretendem transformar galpão da ocupação em um restaurante popular (Foto: Thaís Mota)

"Eu ainda estou com dívidas em relação à casa que eu morava antes. Agora, esse mês, eu paguei o último aluguel e a conta de água e luz. Então, no próximo mês, acho que terei condições de trazer o restante dos meus móveis porque o carreto aqui na comunidade é muito caro", disse uma das moradoras.

Também já existe uma instalação de água na casa, que havia sido desligada no dia da ocupação mas que foi refeita. Já a energia está sendo cedida por um vizinho, enquanto os moradores não conseguem instalar diretamente com a Companhia Energética de Minas Gerais (Cemig), em razão de débitos anteriores do imóvel.

Peso do aluguel

Todas as famílias da Ocupação Pátria Livre já moravam na Pedreira Prado Lopes. Algumas viviam de aluguel e outras de favor na casa de amigos ou parentes.

Segundo Taciane Cristina da Silva Ferreira, de 27 anos, que também é integrante do MTD e vive na ocupação com o marido e quatro filhos, o aluguel era uma das maiores despesas das famílias e a ocupação trouxe alívio às pessoas e proporcionará uma melhoria na qualidade de vida.

Já na cozinha comunitária do imóvel são preparadas as refeições dos moradores e os almoços de final de semana (Foto: Thaís Mota)

No caso de Soraia, por exemplo, ela conta que tinha uma renda de R$ 930, somando o benefício do filho especial e a pensão das crianças, enquanto o aluguel custava R$ 600. "As vezes, eu tinha que optar entre comprar alimentação ou remédios e pagar o aluguel", relembra.

Situação da ocupação

O caso da Ocupação Pátria Livre já está pautado na Mesa de Diálogo e Negociação Permanente com Ocupações Urbanas e Rurais, do Governo de Minas Gerais. No entanto, nenhuma reunião para discutir o futuro das famílias ainda foi realizada. Já a Prefeitura de Belo Horizonte, na figura do vice-prefeito Paulo Lamac, se reuniu com moradores e representantes do MTD.

O Conselho Tutelar da capital também esteve na moradia após receber denúncia de que algumas crianças e adolescentes não estariam regularmente matriculados na escola. No entanto, segundo Soraia, o MTD reuniu documentos de todos os menores que vivem no imóvel e comprovou a matrícula e, inclusive, a frequência nas aulas de todas as crianças.

Segundo o Movimento, o imóvel ocupado estaria abandonado há quase 12 anos. Ele teria pertencido a uma empresa de telefonia que quebrou e foi a leilão, sendo arrematado pelo atual proprietário. No dia da ocupação, um advogado do dono esteve no imóvel, mas até hoje não há nenhuma ação de reintegração de posse do prédio na Justiça.