Seja usando a força física, o conhecimento intelectual ou um talento nato para realizar determinada tarefa, o trabalho é a principal característica que nos remete ao trabalhador, que é homenageado, no dia 1º de maio. Mas, muito mais que braços e cérebros, esses trabalhadores são cidadãos com demandas diversas de segurança, educação, saúde e acesso à informação.

Eles são a força que constrói prédios, limpa estabelecimentos e ruas, vende nos comércios, ensina nas escolas, cuida dos doentes nos hospitais. Mas, por outro lado, não é deles, muitas vezes, a prioridade na garantia de direitos constitucionais. E é por isso que, neste 1º de maio, o Portal Minas Livre dá voz ao trabalhador-cidadão. Confira um bate-papo com três trabalhadores de áreas diferentes em Belo Horizonte sobre o Dia do Trabalho e outros assuntos ligados à cidadania.

 

 

>Aryadne Barbosa Rodrigues, 26 anos - supervisora de instalação em empresa no setor de vidros

 

Ela nasceu e foi criada em Belo Horizonte e fala com carinho e orgulho de suas raízes em Venda Nova, na região Norte. Depois de se formar no ensino médio e se casar não foi para muito longe e permanece desse mesmo lado da cidade. Antes de atuar no “ramo vidreiro”, Aryadne também trabalhou como motorista de aplicativos de transporte particular, onde fez sucesso com sua simpatia, mas onde também enfrentou, de perto, os desafios de Belo Horizonte. Hoje atua em uma posição de gerência numa empresa no segmento de vidros.

 

No dia 1º de maio se comemora o Dia do Trabalho. O que isso significa para você?

Para mim significa que muitos lutaram para que eu tivesse condições mais justas de trabalho. E me faz refletir sobre a importância de lutarmos por nossos direitos.

Como a violência e a criminalidade interferem na sua vida? Para melhorar a segurança, o que é mais importante: ter uma Justiça mais ágil? Ter uma polícia mais efetiva e presente? Criar programas na área de educação esporte e cultura para juventude?


Quando trabalhei com o Uber eu me deparei de cara com a violência, pois vivia com medo de ser assaltada. E eu cheguei a ser assaltada. Mesmo não trabalhando mais como motorista, a insegurança continua, pois vi de perto o que acontece nas ruas de BH. Não há forma de resolver o problema da violência senão com educação. É simples: quanto maior a taxa de escolaridade menos a violência.

Hoje em dia há um excesso de informações circulando em todo os lugares, potencializadas principalmente pela internet. Você acompanha isso? Acredita nas informações que vê e ouve? Como você seleciona isso?


A tal da fake news, caso complicado. Esses dias minha cunhada mandou no grupo de Whatsapp que o Papa tinha "condenado" a Bíblia como um livro já obsoleto. Toda minha família começou a comentar. Sei que existem essas notícias falsas e discrepantes, mas também sei que há as sutis, que são preocupantes. Costumo jogar a notícia no Google, se aparecer em uma mídia confiável, aí considero.

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>Daniel Coelho, 32 anos – Professor de história na rede de ensino particular de BH

 

Belo-horizontino de berço, ele estudou na rede pública de ensino boa parte de sua formação. A escola particular só foi uma opção no terceiro ano do ensino médio, quando se preparava para o vestibular e quando cursar história se tornou uma convicção. Se formou pela UFMG, se tornou professor, se casou e recentemente concluiu o mestrado em Teologia na Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia, que fica na região Norte de BH.
 

No dia 1º de maio se comemora o Dia do Trabalho. O que isso significa para você?

É um dia de celebração, mas antes de qualquer coisa, um dia de luta. Um dia que, historicamente, desde o século 19, é usado para unificar os trabalhadores para reivindicar melhores condições de trabalho. É o reconhecimento de que o trabalhador tem força e que essa força deve ser usada para melhorar as condições de vida e de trabalho. Eu tenho muita dificuldade de ver o Estado ou os grandes empresários assumindo para si a responsabilidade de celebrar o Dia do Trabalho porque, dessa forma, o dia se esvazia em significado. Eu penso que é o trabalhador que tem que criar essa consciência de que ele é que movimenta a economia, é ele que faz gerar lucro e que é dele toda a força de produção de trabalho. E, por isso, ele precisa ser valorizado de ponta a ponta nessa relação.

Na reforma das leis trabalhistas, o papel legal do sindicato para negociações foi reduzido. Isso vai mudar alguma coisa na sua vida?  

A reforma trabalhista foi um grande golpe sobre a vida do trabalhador. Esvaziar o sindicato de importância nas relações entre funcionário e patão é retirar toda a força do trabalhador. Então, sim, a redução do papel do sindicato me afetou profundamente. Isso porque o trabalhador só tem força se ele tiver meios de centralizar sua reivindicação, de unificar sua luta e de se reconhecer como um entre tantos outros que, assim como ele, precisa lutar por melhores condições. E o sindicato é essa voz. Com todas as críticas que existem a respeito do modelo sindical, mesmo assim, ele é tudo que temos. Que se pense em uma mudança nos sindicatos, mas que não retire dele sua importância histórica. 

Segundo os especialistas no Brasil os impostos recaem mais sobre os pobres, pelo fato de sua renda ser menor e eles pagarem tributos sobre tudo que consomem. A classe média também paga muito, como por exemplo, por meio do imposto de renda.  Você acha que o governo deveria baixar os impostos para os pobres e para a classe média e aumentar os impostos para os ricos? 

Sim, é necessária uma profunda reforma tributária no Brasil em que heranças passem a ser tributadas de uma forma mais responsável pelo governo, visando a redução da desigualdade social. Também pensando em políticas de distribuição de renda. O trabalhador, tanto o mais pobre, quanto o mais rico, paga imposto sobre tudo o que consome. A grande diferença é que o rico constrói sua riqueza em cima da exploração do trabalhador, ele não constrói a riqueza dele sozinho. O trabalhador pobre vende a força de trabalho dele, então até essa relação precisa ser repensada. O rico tem mais condições de contribuir com a sociedade porque ele se beneficia do sistema estabelecido, ele faz uso da força de trabalho e ele recebe herança advinda de uma relação de exploração também. Então, é necessário e urgente que o Brasil repense a forma de tributar os seus cidadãos. E que essa tributação seja proporcional. Só assim haverá algum tipo de justiça social promovida pelo governo.

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>Valdênia Maria da Silva, 58 anos – Auxiliar de serviços gerais

 

Nascida em Congonhas do Norte, no interior de Minas Gerais, ela conheceu cedo a palavra trabalho. Aos 11 anos já ajudava a levar sustento para a família, enquanto terminava o ensino fundamental. E o trabalho a acompanhou por toda a juventude e maturidade: além das tarefas de casa - que não eram poucas com seus cinco filhos-, ela transformou suor em renda, trabalhando como babá, manicure e limpeza. Hoje mora com quatro filhos e uma neta no bairro Ribeiro de Abreu e é contratada como auxiliar de serviços gerais em um pré-vestibular na região Centro-Sul de BH.


No dia 1º de maio se comemora o Dia do Trabalho. O que isso significa para você?

O dia do trabalho, para mim, é um dia como qualquer outro. Agradeço a Deus por ter um emprego, mas ao mesmo tempo, penso nos milhões de brasileiros desempregados sem ter nenhuma perspectiva de dias melhores.

Você acha que a escola pública atende bem as necessidades de educação de seus filhos ou parentes? Comparando o seu tempo de jovem com os dias de hoje, você vê mudanças?

Meu lema sempre foi o seguinte:  o aluno é que faz a escola e não a escola o aluno. É claro que existem muitas deficiências nas escolas públicas. Mas, para os meus filhos, não atrapalhou, pois todos estudaram em escolas públicas e conseguiram cursar ensino superior, inclusive três cursaram na UFMG. Desde que os filhos dos trabalhadores realmente queiram estudar, não existem dificuldades para que eles ingressem em faculdades.

Em relação à minha juventude e à de hoje, existe uma enorme diferença. Na minha época não existia tantas oportunidades como existem hoje. Eram muito poucas escolas. Eu, por exemplo, tinha que andar três quilômetros a pé, margeando uma BR, para conseguir chegar até a escola. Só se estudava até a quarta série gratuitamente. A gente começava a trabalhar muito jovem, eu comecei com 11 anos de idade. Hoje, os jovens têm muito mais oportunidades. Basta terem determinação e vontade de ser alguém, que conseguem.

Muitos casos de corrupção estão se tornando públicos. Além dos políticos e das empresas, você enxerga corrupção em outros lugares? Além de julgar e punir corruptos, você sugere alguma medida para reduzir a corrupção?

Sim, eu vejo que a corrupção está espalhada à nossa volta. E isso inclui o famoso jeitinho brasileiro. É o cidadão que faz gatos para não pagar as contas, a mania de querer levar vantagem em tudo e muitas outras coisas que dariam uma página escrita. A minha sugestão para que a corrupção seja reduzida é que todo cidadão pare, pense, olhe à sua volta e decida mudar suas atitudes em relação à comunidade na qual ele está inserido.