Servida no prato em um restaurante ou comprada no sacolão às pressas em meio a uma rotina intensa, a comida de verdade tem pouco valor aos olhos de uma população apressada e influenciada todos os dias pela indústria do alimento. Na televisão e nos jornais de economia o agronegócio é saudado como o grande gerador de riqueza para o País, mas pouca gente sabe que a verdadeira riqueza e diversidade vem da agricultura familiar ou da agroecologia.

Para discutir a importância dessa agricultura ainda pouco valorizada no Brasil, o Minas Livre ouviu a secretária do Encontro Nacional de Agroecologia (ENA), Danúbia Gardênia da Silva. O encontro, que é organizado pela Articulação Nacional de Agroecologia, está em sua quarta edição e, este ano, acontece em Belo Horizonte, entre os dias 31 de maio e 3 de junho. O tema desta edição será “Agroecologia e Democracia Unindo Campo e Cidade”. Também serão discutidas as políticas públicas para a agricultura familiar e para os povos indígenas e comunidades tradicionais. 

1 - O que é Agroecologia?

Quando a gente fala de agroecologia, estamos falando de três sentidos dessa palavra: como movimento, como ciência e como prática. O movimento social busca a transformação das relações sociais. A ciência tem a perspectiva da pesquisa, sistematização das tecnologias sociais. A prática é o próprio fazer mesmo dos agricultores, das agricultoras, dos povos tradicionais. A agroecologia não é só uma substituição de insumos, não é só deixar de produzir com veneno ou só uma produção de alimento saudável. É isso, mas também é uma mudança das relações sociais. A agroecologia trabalha com relações mais justas na perspectiva de gênero, das juventudes, em busca de uma sociedade mais igualitária.

2 - O tema do ENA deste ano é “Agroecologia e Democracia Unindo Campo e Cidade”. Você pode explicar melhor o objetivo desse tema? Qual a importância dessa união entre campo e cidade para a agroecologia?

A gente trabalha para diminuir essa dicotomia entre campo e cidade. A gente pensa que o campo é o lugar de produção e a cidade é o lugar de consumo, mas é importante a gente pensar em novas relações e conexões desses dois mundos que, muitas vezes, já estão unidos. Nesse sentido é muito importante a gente dar visibilidade para a agricultura urbana, pensar que o urbano é um lugar que deve e já produz alimento, pensar em cidades mais sustentáveis onde cabe a produção de alimentos e pensar que o campo não é só um lugar de produção, mas de vida também. Os direitos da população que vive no campo sãos os mesmos da população que vive na cidade. Temos que pensar um campo que é composto por pessoas, cultura, serviços.

3 - Em Belo Horizonte e na região metropolitana já existem experiências de agricultura urbana que dialogam com o direito à cidade? Você pode citar algumas?

Belo Horizonte tem um reconhecimento nacional na perspectiva da agricultura urbana. A gente tem os Centros de Vivências Agroecológicas, que pensam em parques e praças, mas também com produção de alimento. Temos as ocupações urbanas, que têm trabalhado a agroecologia como seu princípio, inclusive de direito. Em Sete Lagoas, na Região Metropolitana, temos um trabalho antigo, que são as hortas urbanas. São hortas que a prefeitura constrói junto com os agricultores e agricultoras. A população cultiva e vende para o Programa Nacional de Alimentação para merenda escolar. No Baixo Onça a gente tem uma experiência antiga de hortas coletivas e produção de alimento em escolas.

4 - Qual o cenário atual de políticas públicas para a agricultura familiar, para os povos indígenas e para os povos e comunidades tradicionais? Elas são adequadas e suficientes? O que falta?

Nos últimos anos a gente teve um acúmulo de políticas nacionais para a agroecologia e para a agricultura familiar. Tivemos a Política Nacional de Agroecologia e Produção Orgânica, o Plano Nacional de Agroecologia, a Política Nacional de Assistência Técnica e Extensão Rural, o Plano Nacional de Alimentação Escolar, editais dos governos federal e estadual. Houve um acúmulo, mas não dá para dizer que já está bom porque nunca está, né? Sempre há o que aprimorar. De qualquer forma vivemos esse momento importante de receber políticas públicas, exercitá-las e aprimorá-las.

Mas, nesse momento, a gente percebe que há um desmonte dessas políticas. Com o golpe isso tem um rompimento e muitas dessas políticas que foram pautadas pela sociedade civil e que estavam sendo executadas pelo terceiro setor, por movimentos sociais, agora tem uma parada e uma dificuldade de retomada e aprimoramento. Esse rompimento tem se dado pela não liberação de recursos ou pela não continuidade de políticas que, anualmente, eram executadas com abertura de editais. A participação da sociedade civil, os fóruns, os conselhos estão enfrentando um momento difícil, tentando entender como lidar com esse governo golpista.

5 - E em relação aos agrotóxicos? Como esse tema ainda é um desafio no nosso País?

O Brasil é o País que mais consome agrotóxico no mundo. A última pesquisa mostra que a gente consome 7,3 litros de agrotóxico por pessoa por ano. Isso tem a ver com um Estado que está completamente aliado ao capital. Não temos fiscalização, vários agrotóxicos que são proibidos no mundo todo são legalizados no Brasil. É um jogo de poder, política e de mercantilização da vida. Antes do direito à vida se pensa no direito das grandes empresas de ganhar dinheiro.

Temos uma campanha permanente contra os agrotóxicos e tentamos mapear territórios que estão completamente sufocados pelo agronegócio e pelo uso de agrotóxico. Tentamos pautar uma lógica inversa porque, hoje, quem não usa agrotóxico é que tem que provar que não usa. Para você certificar seu produto como orgânico tem uma série de burocracias, de forma que ou você paga uma agência que te dá esse selo orgânico ou faz pelo Mapa ou pelos sistemas participativos. Em contrapartida, quem produz alimentos com agrotóxico não tem que ter selo, o que é um absurdo. A gente tem o direito de pegar um alimento e ler na embalagem que ele foi produzido com agrotóxico.

6 - O Brasil é tido como um dos países que obteve grandes avanços tecnológicos na agricultura. Isso reverteu em ganhos de escala para o agronegócio, responsável hoje por ser o maior gerador de renda para o País. Como fica a agricultura familiar nesse contexto? Ela recebeu financiamento da produção nas últimas décadas?   

Se a gente disser que o agronegócio sustenta o País, a gente precisa entender a quem ele sustenta e para onde vai esse dinheiro. Porque hoje o agronegócio não produz alimento pra gente. Ele tem uma escala grande porque recebe investimento, mas é uma produção para a exportação. E uma produção de poucas variedades, diferente da agricultura familiar, que é de onde vem a variedade alimentar que temos. Existe uma informação de que 70% do alimento que está na nossa mesa vem da agricultura familiar. Nesse sentido, considerando a proporção do que ela produz em alimento e vida, a agricultura familiar não tem o investimento necessário. O Estado prioriza o modelo do agronegócio, a monocultura que são grandes plantações de soja ou de milho. Mas, ao mesmo tempo, toda essa riqueza produzida pelo agronegócio não fica para os territórios, não fica para os sujeitos que produzem esse alimento.

7 – E em relação a incentivos para a pesquisa da agricultura familiar?

É muito pouco. Até nos cursos de agronomia grande parte trabalha para o agronegócio. A gente tem núcleos de resistência nas universidades que pensam a partir da agroecologia, mas não é o comum. O comum é que as pesquisas sejam voltas para a produção de novas sementes transgênicas, para novas tecnologias para produção em larga escala e muito pouco sobre as tecnologias sociais, do aprimoramento e difusão dessas tecnologias. Isso fica a cargo, muitas vezes, da sociedade civil e dos movimentos sociais, que produzem projetos para que essas tecnologias possibilitem qualidade de vida para as pessoas.

8 - É possível ter uma produção em larga escala, usando de tecnologias agroecológicas? 

Tudo é possível, dependendo do que é desenhado. Para ter uma produção de larga escala a partir da tecnologia da agroecologia seria necessário pensar em um novo sistema agroalimentar. Pensar uma lógica de proximidade, um circuito curto. Hoje a gente produz o alimento em Minas Gerais que vai para São Paulo ou a gente consome aqui o que vem de Goiás. Precisamos de políticas que pensem qual a variedade de alimentos que culturalmente produzimos em Minas Gerais e que a gente é capaz de produzir aqui. Precisamos entender como a gente fortalece as cooperativas, a economia solidária, como a gente fortalece essa cooperação entre consumidores e produtores. Para pensar em produção de larga escala a partir da agroecologia a gente teria que pensar em uma outra forma de economia, que fortalece esses sujeitos. 

9 - Quais as medidas necessárias para tornar mais saudável o padrão de consumo da população brasileira? 

Hoje o mercado faz uma homogeneização do nosso sistema agroalimentar. Quem mora em Minas Gerais precisa comer a mesma coisa de quem mora no Nordeste. A gente chega no sacolão e quer pegar a mesma fruta o ano todo, independente de que época é, então a gente perde essa conexão cultural e temporal da natureza. A questão é como a gente pensa e valoriza essas diferenças culturais e como as políticas públicas têm sensibilidade para entender isso? Essa padronização da alimentação é muito forte, a indústria homogeniza o desejo: todo mundo come chips, toma refrigerante, pois o mercado alimentar vem com muita força e com um baixo custo, já que produz em larga escala. 

É por isso que é tão importante incentivar a comida de verdade. Antigamente a população pobre não tinha acesso ao carrinho de supermercado e, por isso, comia mandioca cozida, melado. Hoje temos uma inversão desse cenário: a classe média e alta começa a consumir essa comida de verdade, até porque virou moda, mas a população pobre começa a comer produto. Se ela comia um cozido de manhã, hoje ela come um biscoito recheado porque tem uma massificação dessa alimentação. O alimento se transforma em mercadoria e a gente perde essa conexão do alimento como cultura, como parte integral do nosso corpo e passamos a consumir aquela mercadoria que é mais barata, que temos acesso. 

10 - A água é o insumo principal da agricultura. Como tornar seu uso sustentável?  

Na agroecologia a gente se preocupa em respeitar o ciclo da natureza. A produção de alimento tem que estar alinhada com o processo da natureza e, por isso, buscamos nos inspirar na própria natureza para desenvolver o ciclo da produção. A água está dentro desse processo: eu preciso usar água, mas eu preciso plantar água também. A água é um recurso escasso e se você pensar em uma monocultura, como o agronegócio faz, esse sistema é perverso: gasta-se milhões e milhões de litros de água, e não se devolve essa água. Na agroecologia pensamos em como respeitar o ciclo natural de chuva ou falta de chuva. Pensamos o que precisamos plantar em cada época para usar menos água, então se o tempo é de estiagem eu tenho que plantar alimentos que consomem menos água.