Belo Horizonte, Rio de Janeiro, São Paulo, Salvador, Recife e diversas outras cidades no Brasil receberam, no último mês, uma série de manifestações em memória e luta pela vereadora do Rio de Janeiro, Marielle Franco, assassinada no dia 14 de março. A mulher negra, lésbica e moradora da periferia, que foi a 5ª vereadora mais votada na cidade, levantava a bandeira dos direitos humanos e denunciava a violência contra jovens negros moradores das favelas no Rio de Janeiro.

A intenção do ato criminoso era intimidar, conforme defende a psicóloga, ativista pelos direitos juvenis e integrante do Fórum das Juventudes da Grande BH, Fabíola Rabelo. Mas, ela lembra que os tiros que silenciaram Marielle não fizeram calar milhares de “outras Marielles” que vivem a mesma realidade e estão dispostas a lutar pela democracia real que não marginaliza com base em cor, classe social ou gênero.

Em entrevista ao Minas Livre, Fabíola Rabelo fala sobre a importante ação do Fórum das Juventudes da Grande BH, que representa os jovens em sua diversidade de classe, cor, gênero e território onde vive - e por isso juventudes no plural -  e que vem lutando contra a violência direcionada ao jovem, principalmente à juventude negra moradora de periferia. Ela também analisa o assassinato de Marielle e a repercussão das manifestações que levaram a bandeira de “Marielle Presente”.

 

Por que e para que o Fórum das Juventudes da Grande BH existe?

O Fórum existe desde 2004 quando um grupo de ativistas, organizações e coletivos juvenis se uniram em prol da luta pelos direitos juvenis, num contexto de incipiência de políticas públicas para o jovem. O Fórum atua na promoção dos direitos juvenis com o objetivo de exercer controle social nos processos de formulação de políticas públicas para as juventudes no âmbito do município e região metropolitana. Tem o objetivo também de mobilizar a sociedade civil para essas pautas que afetam a vida das juventudes, procurando criar mecanismos de mobilização social em torno das pautas que remetem a esse público, a partir de uma articulação em rede. Essa articulação se se orienta a partir de quatro eixos de atuação: incidência política, mobilização, comunicação e educação popular.  Desde 2013 a principal bandeira de luta do Fórum é Juventudes é contra a Violência, que é uma pauta que foca a luta contra o genocídio da juventude negra.

Por que adotar esse tema da violência como central?

Por conta da juventude ser quem é mais alvo dessa violência no País. E alvo de uma forma alarmante porque quem morre é uma juventude muito específica: negra, da periferia, pobre. É uma violência que tem faixa etária, cor, gênero, classe e endereço. Se a gente pegar o Mapa da Violência de 2016 a gente vai ver que a violência cresce cada vez mais contra a população jovem negra da periferia, de uma faixa etária muito específica de 15 a 29 anos. Nesse ano o Mapa da Violência até fez uma comparação, pensando nos 25 mil jovens que temos no País de 15 a 29 anos. Houve um aumento de quase a 700% de mortes desses jovens por arma de fogo em relação à década de 80.

E é importante a gente lembrar que quando a gente fala do genocídio negro, a gente está falando, sim, da morte física desse jovem, mas também de algo anterior. Algo que diz sobre esse corpo negro totalmente sem direito, que tem sofrido, sido invisibilizado, negado, que tem sua cultura desvalorizada, sua fala deslegitimada, que é silenciado o tempo inteiro. É um genocídio que se inicia antes dessa morte física. Se inicia no momento em que que nega o direito ao espaço, à fala, à escuta, à forma como ele fala na periferia, que é muito criticada e não inserida no social de forma a ter um valor de legitimidade.

É uma estratégia do Fórum tentar enfrentar essa violência de forma a mobilizar a sociedade e os governos para esse genocídio que está em curso no País, criando formas de diálogos via uma campanha que elenca 10 pautas prioritárias que poderiam atuar contra essas diversas violências que acometem as juventudes.

Essa estratégia é a criação da plataforma política Juventudes contra a Violência, certo? Você pode explicá-la melhor?

Em 2014 o Fórum cria a plataforma política de modo a despertar o olhar e ação de governos e da sociedade contra as violências que afetam significativamente a vida das juventudes. A campanha possibilitou o desenvolvimento de ações em diferentes territórios de BH, tendo como objetivo repudiar as violações dos direitos juvenis e mobilizar geral para o fim da violência sofrida pelas juventudes. 

Com a campanha, foram criados dez eixos ou pautas prioritárias. Os eixos referem-se a ações que compreendemos necessárias para que esse cenário de violência se altere. Eles são: acesso à justiça; direito à cidade; democratização das comunicações; enfrentamento ao genocídio da juventude negra; novo modelo se política de drogas; novo modelo de segurança pública e desmilitarização das policias; orçamento público para juventude, fortalecimento da democracia participativa e do sistema socioeducativo, além da efetivação das políticas sociais. 

 

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Dentro dessa plataforma Juventudes contra a Violência vocês promovem o evento “Okupa”. Você pode explicar o que é essa ação?

O Okupa é uma atividade que, é claro, discute as pautas da plataforma política, mas é uma atividade mais autônoma nesse sentido. Ela vem sendo desenvolvida desde 2011, se iniciou com o Observatório das Juventudes da UFMG e depois o Fórum deu continuidade. O “Okupa: a juventude okupa a cidade” é um rolê que tem como marca a discussão dos direitos juvenis, por meio da ocupação de um espaço público através de manifestações artístico-culturais juvenis e muita potência política. Em 2015 o Okupa deixa de ser um evento em si e passa a se tornar uma série de atividades formativas que culminam num evento final, que normalmente acontece em julho. Nesse evento a juventude manifesta sua cultura, sua arte, realiza intervenções políticas sempre voltado para o tema da edição.

Qual é o tema do Okupa 2018?

Este ano o tema é violência institucional, que foi orientado também pelo fato de o financiador dessa edição ser o Fundo Brasil de Direitos Humanos. A compreensão que adotamos acerca de violência institucional refere-se à violência cometida por serviços públicos e agentes públicos que deveriam estar garantindo os direitos sociais, mas na verdade agem de forma contrária. Esses jovens negros muitas vezes não têm acesso a esses espaços institucionais, seja porque chegam a uma instituição de saúde e não recebem atendimento adequado ou na segurança pública desde a abordagem da polícia até a apreensão do jovem de forma truculenta, que se pauta por uma lógica racista.

Este ano vamos construir uma ferramenta audiovisual para dar visibilidade a essas violências e sinalizar onde a juventude pode recorrer quando essa violência acontecer. E pensando isso para além da rede de equipamentos públicos, mas também na rede social e informal. Pode ser um grupo cultural, um coletivo, um movimento social e outras formas que a juventude se organiza.

Nessa edição do Okupa, a atividade tem acontecido na Região Metropolitana de BH, com coletivos de Ibirité e cidades do entorno: Betim, Mário Campos, Sarzedo e Contagem, na perspectiva de fortalecer a cultura e a arte da quebrada nos territórios em que são produzidas e para potencializar a articulação juvenil existente na região metropolitana.

 

Muito se fala em educação, esporte e diminuição do tráfico de drogas para combater a violência. Na sua opinião, a violência vai diminuir a partir de que tipo de política ou iniciativa? 

Acredito que com uma política democrática, que seja feita com a participação popular, que se comprometa com a justiça social, que lute contra as diferentes formas de desigualdade, que atue pelo fim desse sistema genocida, racista, machista, misógeno, lebofóbico, transfóbico e demais opressões que vêm alimentando esse ciclo de exclusão social. 

A aposta é também nas iniciativas populares. É preciso fortalecer quem vem lutando por direitos, pela igualdade com diversidade, pelo bem coletivo, pela vida. Assim, acho que vamos conseguir o desenvolvimento da democracia representativa, com pessoas que defendam de fato nossos interesses e não os seus individuais. 

Precisamos tirar do poder aqueles que monopolizam a ação política, que criam hierarquias buscando apenas desfrutar de privilégios. A organização da sociedade civil é fundamental para a construção de uma outra política, para a transformação social, onde todas, todos e todes tenham lugar e voz.

 

No último mês fomos surpreendidos pela triste e revoltante notícia do assassinato da vereadora do Rio de Janeiro, Marielle Franco, que levantava bandeiras dos direitos humanos, entre eles a violência contra jovens negros moradores da periferia. O que essa morte trágica diz à sociedade?

Foi uma execução que parece vir nos avisar que não nos querem nos espaços de poder. Um aviso direcionado à população que ela representava. É um aviso que parecer querer congelar todas as conquistas que tivemos ao longo dos anos. A Mrielle, por representar uma diversidade de lugares – mulher, negra, lésbica, moradora da periferia – falava e fazia não só por ela, mas por muitos. O fato de ela ter levado a voz do povo para onde o sistema quer que que essa voz não chegue foi tido como uma ameaça para o sistema. A Marielle lutava em prol de uma população historicamente marginalizada dentro de um sistema neoliberal, que age em prol dos seus interesses e não a favor das demandas reais da população. E por isso o sistema reagiu com tamanha brutalidade. O sistema quer manter pessoas específicas no poder usufruindo privilégios.

O fato de ela ter conquistado esse lugar de poder que é negado a essa população historicamente ameaçou a ótica masculina e branca. Quando ela consegue sair do lugar que o sistema determinou pra ela e construir a narrativa dela a partir dela mesma e não do sistema que empurra determinados grupos sociais para a margem, ela está levando um monte de gente com ela, ela está fazendo revolução e isso eles não querem.

Quatro dias antes de sua execução, ela havia denunciado uma violência policial ocorrida com jovens em Acari, zona norte do Rio de Janeiro, o que nos mostra o quanto a intervenção no Rio de Janeiro é uma falácia, que não quer acabar com a criminalidade, mas aumentá-la, lucrar com ela, criminalizar ainda mais a população pobre e negra. Querem nos calar, congelar nossos corpos e nos impedir de seguir, porém somos muitas Marielles e vamos seguir com mais força e mais grito onde eles não querem que estejamos. Marielle se multiplicou entre nós porque, eles podem ter se esquecido, mas “quando uma mulher negra se movimenta, toda a estrutura da sociedade se movimenta junto com ela”, como diz Ângela Davis. 

 

Cidades do Brasil inteiro receberam manifestações contra o assassinato da Marielle, mas nas mesmas semanas surgiram pessoas anônimas e públicas que questionaram essa reação e ainda associaram o movimento à política partidária. Como você enxerga essa reação e de que forma ela é prejudicial?

Essas críticas nascem por causa de uma visão muito míope da realidade. Enxergo como prejudicial, pois demonstra que as pessoas não têm dimensão do que, de fato, vem ocorrendo no País. Não se dão conta do golpe que foi instalado e dos desmontes paulatinos que vêm ocorrendo. É preocupante esse discurso que busca enviesar as situações e que se preza por fazer circular o ódio, que desqualifica e deslegitima a luta de pessoas como Marielle.

Penso que precisamos focar naquilo que nos une ou pode vir a nos unir. A crítica às manifestações pela Marielle nem merecem atenção ou ibope porque vêm sem fundamento, sem entendimento dos lugares que ela representava. São pessoas que não querem seus privilégios remexidos. Esse tipo de reação são forças que querem nos desviar de um propósito muito maior. É um ataque que a gente tem que enfrentar com diálogo e dando passos à frente e não retrocedendo. É como uma amiga do Fórum diz: medo a gente tem, mas a gente não usa.