"Não há transformação profunda sem a participação organizada daqueles que mais precisam que o País se torne uma nação forte, independente, soberana e desenvolvida". A partir desse mote, a Frente Brasil Popular, que reúne movimentos populares, centrais sindicais e partidos políticos, está organizando desde o início do ano o Congresso do Povo. A decisão de realizá-lo foi uma proposição da 2ª Conferência da Frente Brasil Popular, que aconteceu em dezembro do ano passado.

A proposta é basicamente o diálogo com o povo brasileiro, ou seja, ouvir os cidadãos e os problemas que enfrentam nas regiões onde vivem. Por isso, estão sendo realizadas etapas municipais e estaduais que vão desembocar no congresso nacional, que deve ocorrer entre julho e agosto deste ano.

Além de uma iniciativa de diálogo permanente com o povo brasileiro, a representante da Marcha Mundial das Mulheres e da Frente Brasil Popular em Minas, Bernadete Monteiro, explica que o Congresso pretende ainda construir um projeto político para o Brasil, que seja baseado na soberania nacional, no respeito à democracia e no combate às desigualdades sociais.

Confira a entrevista abaixo:

Minas Livre: Quais são os objetivos do Congresso?

Bernadete Monteiro: É essa necessidade da gente retomar o processo de formação e debate com o nosso povo em torno dos principais problemas que afetam sua vida e, ao mesmo tempo, de construir projeto popular para o Brasil a partir das mãos do povo. Então, entre os principais objetivos do Congresso está em dividir problemas da vida do povo e, ao mesmo tempo, construir passos e formas para dar respostas a esse problema e que são o ponto de partida para a discussão de um projeto popular para o Brasil. Então, é isso que está colocado.

ML: E como está sendo organizado o Congresso do Povo?

Bernadete Monteiro: Passa por um resgate do trabalho de base. Essa necessidade de fomentar no povo essa esperança de que é possíivel sair dessa conjuntura do golpe, onde a gente está sofrendo inúmeras perdas de direitos, para uma conjuntura onde a gente possa estar melhor colocado e tenha mais força para fazer valer aquilo que o povo também quer.

ML: Você falou de resgate do trabalho de base e retomada da aproximação com o povo. Houve um tempo em que os movimentos sociais se distanciaram da sociedade?

Bernadete Monteiro: O que a gente avalia, de uma certa forma, a gente foi perdendo esse espaço de disputa das consciências a nível de povo. Então, a gente tem uma avaliação de que os próprios governos Lula e Dilma não investiram em ferramentas e ações que nos ajudassem a ampliar esse processo de disputa e a gente coloca na centralidade disso, principalmente, os meios de comunicação. Então, a gente fala dessa coisa da retomada e do processo de resgate muito achando que fomos perdendo essa perspectiva da capacidade de vocalizar essa alternativa de construção de um projeto do povo porque não construimos ferramentas e espaços que ampliassem essa voz. Deixamos a Rede Globo e a grande mídia continuar falando na cabeça do povo e as nossas ferramentas ainda são ferramentas muito tímidas. Então, a gente avalia que houve uma perda do diálogo mais amplo com a população brasileira sobre um projeto de esquerda, um projeto de transformação.

ML: O Congresso está dividido em várias etapas, municipal, estadual e nacional. Como é a participação da população na construção e nos debates promovidos pelo Congresso em todas essas esferas?

Bernadete Monteiro: A organização começou em fevereiro com um seminário de formação de formadores que aconteceu em São Paulo , com representação de organizações de vários estados do País. E aí, os movimentos saíram de lá com a tarefa de organizar seminários de formação de formadores nos estados e, depois disso, esses formadores construíriam o processo de diálogo nas cidades, nas regiões e nas cidades e façam congressos do povo municipais. Depois terá o Congresso do Povo estadual e também o nacional. Mas, nós estamos apostando que o Congresso do Povo é mais do que esses eventos, mas que ele precisa continuar. Então, eu já falei dos objetivos antes, mas um dos objetivos do Congresso do Povo é também fortalecer e ampliar a construção da Frente Brasil Popular nos municípios, estados e comunidades para que esse processo seja um processo contínuo. Até porque, a gente sabe que até final de julho ou agosto, quando deve acontecer o Congresso do Povo nacional, é pouco tempo pra se chegar em uma grande número de pessoas e construir esse projeto. Então, a perspectiva é de que isso continue para além desses eventos, inclusive depois do congresso nacional.

ML: No último final de semana, vários municípios mineiros fizeram encontro de formação de formadores. Qual é o cronograma das atividades no Estado até o Congresso do Povo nacional?

Bernadete Monteiro: A ideia é de que abril e maio sejam o processo de mobilizações para os congressos do povo municipais. E o estadual deve acontecer nos dias 9 e 10 de junho.

ML: E existe uma outra ideia do Congresso do Povo que é a construção de um projeto popular para ser entregue aos candidatos à eleição presidencial deste ano. É isso mesmo?

Bernadete Monteiro: A gente acha que isso é apenas uma parte de um projeto porque para a gente um projeto que resolva os problemas do povo não passa só pela perspectiva da eleição. Então, esse momento eleitoral só não dá conta da dimensão do que estamos nos propondo a construir. Mas, sim, o Congresso do Povo também tem esse objetivo.