A manutenção da condenação do ex-presidente Lula pela Justiça Federal em segunda instância tem merecido inúmeras análises no Brasil e no exterior. Sem entrar no mérito das acusações ou no tecnicismo jurídico, considero a abordagem sociológica de Jessé Souza, um importante instrumento de apoio para compreender o arranjo político-judicial-midiático que se consolidou no país nos últimos três anos.

Em seu livro “A Elite do Atraso” (Editoria Leya, 2017), Souza tenta desconstruir as teorias dos principais pensadores da realidade brasileira (Florestan Fernandes, Sérgio Buarque de Holanda e Raimundo Faoro), adotadas por segmentos da direita e da esquerda e difundidas pela mídia e pelos liberais da academia, para se opor à prevalência da teoria do “patrimonialismo” sobre a estrutura social e política brasileira. Jessé se opõe à ideia de que a formação social e política do País seja uma herança de Portugal. Trataria-se de uma falácia muito útil para esconder a principal causa de nossas mazelas sociais: a escravidão, que, por sinal, não existia em Portugal. A escravidão determinou, segundo ele, as relações de poder na sociedade brasileira e a discriminação e toda sorte de ódio contra os pobres.

Na discussão sobre a classe média, Jessé aponta as falhas no senso comum que a distingue pela renda e dá importância fundamental para o capital social (relações familiares, sociais, etc) e ao capital cultural (nível educacional, acesso a bens culturais, etc). A todo tempo, busca demostrar como essa classe e suas diversas frações foram cooptadas pela “elite dos endinheirados” para manter o domínio, inclusive dos meios de produção cultural, sobre os pobres, a quem ele denomina de a “a ralé dos novos escravos”.

Jessé discorda duramente da concentração das críticas na corrupção só do Estado e apresenta dados de como a corrupção nasceu e se agigantou no mercado privado e de como esse se apoderou da estrutura estatal, via orçamento público, para pagamento da dívida pública e acumulação do capital financeiro.

A cooptação da classe média, incluso magistrados, intelectuais e trabalhadores qualificados, teria viabilizado uma aliança para perpetuar uma sociedade forjada na escravidão. A consolidação da aliança se deu com o aparato de mídia que, associado corporativamente ao capital financeiro, é usada para legitimar a dominação sobre a sociedade, com a reprodução dos preconceitos e da visão elitista sobre a formação de nosso povo. Em síntese, o pacto anti-popular das classes médias com a elite, há mais de 100 anos, seria a principal explicação para a dominação econômica, política e cultural sobre a sociedade brasileira, inclusive da própria classe média. Concordando ou não com Jessé, vale a pena refletir sobre seus achados sociológicos.