"Dossiê do Terror" aponta pelo menos 58 atentados terroristas na capital mineira; caso será investigado pela Comissão da Verdade de Minas Gerais

A partir de 1968, Belo Horizonte se tornou alvo de inúmeros atentados terroristas contra militantes e organizações que lutavam contra o regime militar ou denunciavam suas atrocidades. A informação consta de um dossiê elaborado pelo ex-presidente do Comitê Brasileiro de Anistia e membro da Comissão da Verdade em Minas Gerais (Covemg), Betinho Duarte, e será alvo de uma investigação da Covemg ainda este ano.

Segundo Betinho, a capital mineira foi a cidade com maior número de atentados terroristas durante a ditadura e no período da redemocratização. Ao todo, o "Dossiê do Terror" relaciona 58 ataques contra jornais, igrejas, diretórios acadêmicos de faculdades da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e contra residências de militantes e ativistas que lutavam contra o regime.

Conforme o documento, o primeiro atentado na capital mineira aconteceu em 11 de maio de 1977. O alvo foi o Diretório Acadêmico da faculdade de Medicina da UFMG, onde, na véspera, foi realizado um ato público pedindo a libertação de estudantes e operários presos em São Paulo. Na ocasião, integrantes do Movimento Anticomunista (MAC) teriam invadido o espaço, vasculhado e pichado o local.

No ano seguinte, as ações do MAC e também do Grupo Anticomunista (GAC) tomaram força e mais de 20 atentados foram registrados. Entre eles estão vários ataques a bomba aos DA's das faculdades de Filosofia e Ciências Humanas, Direito, Medicina, Ciências Econômicas e também ao Diretório Central dos Estudantes (DCE) da UFMG.

Um evento realizado pelo Movimento Feminino pela Anistia (MFPA), na época presidido por dona Helena Greco, também precisou ser esvaziado após uma ameaça de bomba no dia 18 de abril de 1978. Na mesma data, uma bomba foi atirada contra um veículo que passava em frente à casa da militante dos direitos humanos. Alguns dias antes, um bilhete já havia sido deixado sobre o carro de Helena com os seguintes dizeres: "Olho por olho. A cada ação, uma reação. GAC, 28 de janeiro".

Ataque a jornais

Além disso, a sede da sucursal do jornal Em Tempo em Belo Horizonte também foi alvo de diversos atentados na década de 1970. O primeiro ataque aconteceu logo que o veículo publicou uma lista com os nomes de 233 torturadores. A matéria foi publicada na edição de 26 de junho a 2 de julho de 1978 e o ataque aconteceu na madrugada do dia 28 de julho, quando um grupo entrou na redação, roubou algumas máquinas de escrever e documentos, e pichou as paredes com a frase: "MAC + GAC: a volta será pior, entrei de sola e volto".

Na época, Betinho Duarte era diretor da sucursal e acredita que o ataque tenha sido uma represália direta contra a publicação sobre os torturadores. "O 'Em Tempo' não foi censurado, ou seja, não teve jornais apreendidos ou fiscais dentro da redação, mas foi o primeiro veículo do país a divulgar a lista dos torturadores e, logo depois sofreu o atentado. Era uma forma de acabar com o jornal porque não havia dinheiro pra reconstruir", afirma. Em menos de um ano, o jornal sofreu outros dois atentados.

Também foi alvo dos grupos terroristas o jornal De Fato e o Jornal dos Bairros, além da sede do Sindicato dos Jornalistas Profissionais de Minas Gerais. Já nas década de 90, foram alvos os jornais Estado de Minas e Diário da Tarde, além do próprio sindicato, que tiveram ataques a bomba em frente das sedes.

Terroristas eram ligados a torturadores

Além do Movimento Anticomunista (MAC) e do Grupo Anticomunista (GAC), Betinho Duarte deve investigar ainda outros três grupos ligados aos ataques realizados em BH: Grupo Reação, Cravo Vermelho e Bombril. A suspeita é de que esses grupos tinham envolvimento de policiais civis. No entanto, isso só poderá ser confirmado depois que o caso for apurado pela Comissão da Verdade.

Outra suspeita levantada em 1995 é de que esses grupos tinham como membros alguns torturadores que atuaram nos porões da ditadura. A informação foi ventilada pelo então secretário de Segurança Pública do Estado, Santos Moreira, em entrevista ao jornal Estado Minas. Na reportagem, publicada em março de 1995, o então secretário também confirmou que os terroristas seriam ligados à Polícia Civil.

"Estou elaborando um plano de trabalho para apurar tudo isso ainda este ano e para subsidiar os trabalhos da Comissão Nacional da Verdade. Esse dossiê não tem mentira nenhuma e eu já relacionei algumas testemunhas que serão chamadas a depor, inclusive um homem que participava desses grupos de terror. Eu digo que Belo Horizonte foi a capital dos atentados no Brasil e agora isso virá a tona".

Capa - Estado de MinasEm março de 1995, o então secretário de segurança disse ao jornal Estado de Minas que os terroristas seriam ligados à Polícia Civil


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